Leite derramado

Num monólogo, viajamos pelas memórias de um velho no seu leito terminal; um registo poético ponteado por uma ocasional tristeza doce que nos acompanha pela história da família Assumpção. O autor vai-nos logo alertando para o facto de “com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida.”

Vamos seguindo este relato entre o deleite e a vigilância apertada, pois frequentemente as emoções vividas se sobrepõem à realidade. Deixo-vos um relato de um desencontro com o seu sócio Dubosc, e a dor do ciúme que se lhe seguiu.

“Mas Matilde não é muito de sombra, vira e mexe, vai dar um mergulho, e tem sempre uma hora em que sai com um balde para catar as conchas da filha. Então é provável que, a fim de um passatempo, Dubosc a alcance e caminhe com ela à beira da água. Aqui e ali vão parar para colher uma concha, ela se agachando, ele a se vergar, esticando o braço comprido. Nada se dirão, porém Matilde talvez descubra algum significado no toque-toque das conchas, que ela deposita e ele atira no balde. Quando o balde se encher até à borda, será como se tudo entre eles estivesse dito, e seguirão em frente até o forte no fim da praia, onde Matilde vai querer refrescar o corpo. Posso vê-la pousando o balde aos pés de Dubosc e entrando no mar daquele jeito dela, como se pulasse corda. Sairá das águas puxando os cabelos para trás, e Dubosc não vai perceber que uma marola vira o balde que ela deixara aos seus cuidados. Matilde verá as conchas que o refluxo espalhou na areia, pensará que ali pode estar desenhado o seu futuro, mas Dubosc as recolherá na sua manzorra. As conchas que ele joga no balde aos punhados, cheias de areia molhada, ela vai colher de volta e lavar uma a uma. Matilde vai olhar dentro de cada concha, vai espiar o interior daquelas casas abandonadas. E Dubosc olhará o céu, pela posição do sol calculará que àquela hora estarei chegando à Marambia. Àquela hora eu não fazia ideia de onde estava, na minha estrada não batia o sol, eu seguia imerso numa sombra verde.”

23 de Outubro de 2010
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