Apresentação no Porto por Susana Ribeiro

Apres_Porto

Ótima tarde, por sinal. Um dia de estreias. Sinto-me em palco, ante olhares expectantes que os focos não me deixam fixar. Podia tolher-se-me a coragem, nascer o pânico. As ondas de luz que me protegem das expressões, dessas vossas, que tenho mesmo em frente, podiam virar ondas revoltas, em jeito de marmoto, sufocando-me a respiração e o grito, fazendo-me morrer antes do momento do impacto. Afinal, é a primeira vez que apresento um livro. Mas não, nada disso. Não iria mostrar tal covardia ante o ato de coragem que é escrever, não um livro, mas O livro. O primogénito. Escrever não! Afinal resolvo que escrever não tem nada de corajoso. Coragem é mostrá-lo, submetê-lo às críticas do mundo. Coragem é suportar as ignorâncias (ver passar pessoas sobre pessoas em feiras de livros, ver toques e abandonos, olhares de desinteresse. Ver o livro quedar-se, imóvel, na estante de vendas). Coragem é suportar os ciúmes. E tudo isto só porque uma menina de bibe e de tranças loiras, um dia, o vai levar para casa, para o ler no quentinho dos lençóis, de lanterna na mão, quebrando regras e arriscando castigos. Sabendo do seu sorriso, do seu coração acelerado, das suas palpitações, sabendo de cada sentimento seu a cada parágrafo da história. Tudo isto só porque a menina de bibe e das tranças loiras vai emprestar o livro. E, aí, tudo começara. Já começou.

– Ó Toni, apresentar o livro, eu? Eu nunca apresentei um livro! Como se faz isso?
– Primeiro dizes umas palavras acerca de nós, depois falas do autor e depois falas do livro, percorrendo-o mais ou menos longitudinalmente.

Será já claro e evidente que eu vou fazer mais ou menos isso, mas não com requintes de formalismos, nem sequências ditadas pelo usual. O Toni sabe que eu não seria capaz. Ah! E Toni é a versão Nortenha de António, que eu gosto particularmente de usar, isto porque, porque, …
Porque eu o António contactamos um com o outro, pela primeira vez, através dos nossos Blogs de então. O seu Em Livro e o meu extinto Water Dream in My Sleep. Não sei quem deu o primeiro clic, quem escreveu a primeira frase, apenas sei que foi ele quem começou a primeira discussão. Discussão sim, que o António consegue ser absolutamente irritante na forma como se mete connosco. É capaz de por um santo absolutamente de birra. Não acreditam? Leiam o livro e verão a quantidade de bofetadas que ele nos dá, a nós todos, no seu jeito dissimulado de falinhas mansas e prosas catitas. O Livro que ele escreveu fala de um serial killer de consciência divina, justiceiro e cumpridor do papel que lhe foi destinado, sabe-se lá por quem, e que foi enviar para os anjinhos, ou diabinhos (que, pelo menos uma, foi mais ou menos em pecado…) aqueles em que lia a hora que não se escolhe, mas que se cumpre. E aqui está o irritante. É que o António Toni dá-se ao desplante de pegar no modelo holliwodesco do serial killer, absolutamente Americano, personagem de traços absolutamente definidos, para o transformar num Tuga justiceiro, participante num grupo de discussão bíblica que frequenta com a mulher, uma filha da Outra Senhora e, por isso, mais sua mãe do que sua amante, mais de consensos do que de felicidades, mais de bem pareceres do que de sensualidades. Um serial killer Tuga rodeado de colegas energúmenos, que disfrutam mais o Calçadas, um espaço entre tasco e café de segunda categoria, do que a secretária do banco, do qual se ausentam com frequência, tendo, claro, o porteiro subornado. Um serial killer Tuga que que se levanta de manhã para não trabalhar e para observar os colegas a teatralizarem suores de labor em palcos de azáfama puramente simulada, palcos também de burlas e abusos, onde a única coisa que falta mesmo é a página do excel a esconder a do facebook. Acho eu… se bem me lembro… o melhor é lerem e depois confirmam-me, que este detalhe da ausência do facebook está a escapar-me. Exasperante este nosso Toni… Pois tem a insolência de usar aquele seu desplantezinho que nos faz passar a vida a discutir para desproteger de algum vestuário alguma da nossa forma Tuga de estar. Ou melhor, deixando-me de pruridos, eu acho mesmo é que o Toni põe tudo a nu, o livro dele é uma obra naturista sobre o Tuga e a Tugalândia. E, para quem não sabe, a Tugalândia é aquele bocadinho de Portugal que serpenteia de Norte a sul, entre litoral e interior, onde moram as personagens do António. Todas. Em alegre descomunhão e desrespeito social e religioso, mas justiceiras, tão justiceiras como o personagem principal, um serial killer em terra de rei de brincar.
E agora que paro um pouco de teclar… penso… este desplante do António é maroto, cai-lhe bem e… caiu-me muito bem. Tal como vos vai cair a vocês.
Continuando com o discurso do Eu e o António, um dia, após inúmeras bloguices, aconteceu um jantar no Porto. Aí abriram-se portas e janelas, souberam-se famílias e lares. Conheci outra facetas do homem que estava por traz do ecrã do meu computador. Do agora autor. Uma pessoa admirável. Alguém que encontro e reencontro nas entrelinhas da Desilusão de Judas. Conheci o homem que validou o meu sim ao aborto, que me fez definir, de uma vez por todas, pelo sim à adoção por casais homossexuais, que me pasmou, quando me contou que um dia decidiu ser pai de uma díade de procedentes de um judas desiludido, tendo aguentado uma gestação de anos burocráticos e desprovidos de benignidade humana. Admiro-te António. E vão admirar-te todos os que te lerem nas entrelinhas do teu livro.

Mas é claro que o Toni não é só de virtudes. Por um lado, há um vermelho que lhe assenta muito mal quando a bola rola pelo chão. Fazem-lhe falta mais viagens ao dragão… E por outro lado, apesar de muito tentar, nunca me conseguiu despoletar aquela consciência política missionária que ele muito bem revela num tal de um blog (e, também por mero acaso, neste seu Livro), cujo nome provém de um aço qualquer muito duro. Gosta de politicar o nosso António, coisa que muito bem faz e que muito bem juntou à obra que aqui nos traz.
(E ainda no campo da ausência de virtudes, há também outra coisinha. Se um livro, dizem, tem sempre muito do autor, arrepia-me pensar que personagem melhor lhe caberá a ele que também frequenta um grupo de reflexão, que trabalha numa empresa estatal e que gosta de umas comezainas bem regadas e acompanhadas de boa tertúlia. Que personagem lhe caberá….).

Mas, adiante.

E agora vou revelar um segredo nosso, que talvez apenas os nossos respetivos marido e mulher conheçam. Um segredo que sei que a ambos nos enche de orgulho. Em tempos, no blog que perdi de mim, escrevia um conto maravilhoso. Uma história de um morceguinho infeliz, mas capaz de partir em busca da felicidade dos outros. Um morceguinho que sempre que decidia voar pela internet voltava carregado de riscos e risquinhos, birras e correções. De quem? Do António, claro! Eu gostava particularmente das regras que ele enunciava e que eu acabava sempre por violar: nunca se começa um capítulo com um verbo, dizia-me ele. Porque não? Perguntava-lhe eu: temos o era uma vez, um clássico!
Na altura eu achava que o António me brindava com uma dádiva absolutamente altruísta, esta de corrigir os meus escritos. Mas enganei-me! E bem! É que passados tempos lá veio a fatura a pagar parar ao meu endereço eletrónico. Olha, tens aqui o meu livro. Dá lá uma vista de olhos e vê o que te parece.
– “Parece-me que tu és um grande cromo cheio de lata”, foi o que eu pensei. Já não me basta andar de lápis em punho a riscar teses e tesesinhas, relatórios e relatóriozinhos, planos e planinhos e ainda tenho que ler um projeto de livro.” Mas deixa, deixa, eu corrijo (e o melhor que fiz foi mudar de sala, porque estava prestes a afogar-me na escuma da minha própria vaidade!) Uau! Ó gente! O Toni pediu-me para eu ler o livro, o primogénito dele! E foi o que eu fiz, não sem antes o ter colocado sob o formato de livro, um A5 devidamente paginado e encadernado. Livro é livro e eu não ia andar com um trabalhito A4 debaixo do braço. Deve ter sido um bom presságio e também ótimo para o editor perceber que ele precisava de uma capa catita, como aquela que tem agora, para chamar os olhares. Os livros atraem como os Homens, os de H grande, pela capa. Depois, ficamos só com os que têm conteúdo, como este do António, com o qual eu fiquei. E o António, na dedicatória do meu livro, lembrou-me esta passagem do tempo dizendo-me das suas primeiras leitoras e aquela que reduziu o seu manuscrito a livro e lhe deu corpo de livro. Desculpem-me todos e desculpa-me António, mas não consigo deixar de sentir que este livro também sou eu e por isso o orgulho de estar aqui, agora, neste preciso momento, a falar dele e a falar de ti.
E já que eu revi este livro… que tal a escrita do António? Ora perguntem-me? Ok, já sabem sobre a desfaçatez e sobre a nobreza do autor que correm entre todas as frases. Já sabem sobre discursos políticos. Mas, e a escrita? Entre a prosa e a prosa poética. Entre o aforismo e a gregueria, esta mais discreta que aquele. Entre o mundano e o erudito. Entre a doçura e a crueldade. A desilusão de judas é um livro que não desilude. É um livro que não ilude. É um livro sobre nós, despido de psicologias e sociologias, cheio de rua e de realidade. Um livro escrito por quem desceu do elétrico. Parou. Olhou em volta. E escreveu.

Leiam-no. Mas preparem-se. Não venham a sentir-se judas desiludido.

Susana Ribeiro
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6 respostas a Apresentação no Porto por Susana Ribeiro

  1. A Susana brindou-nos com uma apresentação cheia de criatividade, humor e num registo poético de contadora de histórias que ela é, embora, por agora, em período de pausa. O meu muito obrigado pelas palavras e pela crítica acertada, sobre mim, a minha escrita e este meu livro.

  2. Coisas que nunca se esquecem. Simplesmente.

  3. Estive para não escrever nada. Afinal eu estive lá. Fui espectador atento e compenetrado, umas vezes sorrindo, outras rindo abertamente, com a apresentação magistral da Susana Ribeiro. Mas isto meus amigos, não há nada como ler. A minha idade avançada e um microfone que “falava baixinho”, fez com que não tivesse percebido tudo direitinho. Agora sim, li e revi-me naquela sala e naquele momento. Por isso, meus amigos, não se fiquem só por este cheirinho, ou por aquilo que um ou outro amigo vos diga sobre o livro. Abram os cordões à bolsa e comprem a “A desilusão de Judas”, mas não o ponham na prateleira para parecer bonito. Leiam-no. Vai-vos saber melhor do que 2 ou 3 whiskys, ou uma bijutaria para os pulsos ou para o pescoço. Com a vantagem de não terem desilusões, nem ressacas. Quanto ao “Judas” ser o primogénito do António Ganhão, não se fiem que seja único. Iscariotes teve mais 11 irmãos na fé e todos filhos do mesmo Pai.

  4. Pois, também já aqui cheguei. Está bonito, gosto mais deste visual do que do outro. Mas é mesmo assim, quando mudamos, deve ser para melhor 😉

  5. Este comentário do Octávio Guedes Coelho dá uma boa imagem do bom momento que vivemos. Eu reparei que o meu amigo se deixou rir quando a Susana referiu: “Discussão sim, que o António consegue ser absolutamente irritante na forma como se mete connosco.”

    Um abraço e o meu agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para que esta apresentação tivesse sido possível.

  6. Tirando aquela parte de uma espécie de aço, gostei. Gostei muito das fotos. Sim, nota-se que quem fotografou e filmou tem talento.

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