rascunho 01

O dia partiu arrumando consigo uma parte da vida. O lusco-fusco só se faz sentir verdadeiramente em África onde o sol se desprende dos céus e é rapidamente engolido pela linha do horizonte, numa atitude de salto, de queda livre. Mergulho de solidão no mundo das trevas.

O céu vestiu-se a rigor e brilhou na noite; a vida, essa, não acompanhou o sol no seu mergulho de morte. Prolongou-se noite a dentro, só que de forma diferente, invocando novas criaturas que surgiram para a reclamar. Mais nervosas e mais barulhentas, cantavam para afastar os seus receios.


Ngonga, deitado sobre o seu saco cama, olhava o rasto de estrelas que o sol deixara atrás de si. Disfrutava de um momento único proporcionado por uma brisa ligeira que o refrescava e comprometia a estabilidade aerodinâmica dos mosquitos, negando-lhes o voo. Podia permanecer assim fora do saco-cama sem medo de ser picado. Nunca a mata lhe parecera tão fascinante.

O sol, na sua arrogância, não libertara o céu sobre o qual reinava, deixara atrás de si um espirro de estrelas, vigilantes. Numa aparente indiferença, as criaturas da noite cantavam ao desafio, respondiam em código de acordo com a sua espécie, por vezes, um ronco de predador impunha o silêncio. Um período de escuta logo cortado pela resposta; riem-se muito estas criaturas do lado ausente do sol. A noite também libertava os seus aromas escondidos com medo de serem aspirados pelas criaturas do dia, sempre maiores e insaciáveis. Um perfumista reinventaria toda a sua colecção se, como Ngonga, estivesse deitado de costas naquela mata do planalto central de Angola.

Com o sol extinto e os olhos mais habituados à claridade deu conta do velho Hossi, sentado um pouco mais à frente. Parecia invocar os seus antepassados para saber notícias do dia de amanhã. Tinha o desejo de lhe falar, abandonou a sua posição de descanso e aproximou-se.
Incapaz de se sentar sobre os seus calcanhares, à maneira do velho Hossi, usou o seu impermeável como uma almofada e acomodou-se ao lado dele. Este não se mexeu, como se tivesse mergulhado num momento de contemplação.

“Mano Hossi, quantas guerras já viu?”

“Vivi.” Respondeu-lhe sem abandonar o seu transe.

Ngonga pensou que o seu velho companheiro vivera grande parte da sua vida em guerra. Talvez nem percebesse o sentido da sua pergunta.

“O homem não deve perseguir o leão. – Hossi falava como se Ngonga não o escutasse, sem aquele encontro de olhares que envolve o outro no nosso falar. – Quando o leão está ferido ou foi rejeitado pelos seus, ele vai atacar o homem. Então é preciso ir lá e matá-lo. O pior é quando o leão nos caça.”

“É isso que fazemos? Caçamos o leão?”

“Este leão vive dentro de nós, por isso nunca será derrotado.”

“Diz-me mano Hossi, não tens medo de morrer?”

“A morte está aqui.” Hossi levou os dedos à testa.

“Na nossa cabeça? É uma vontade?”

Hossi teria encolhido os ombros, se o costume lhe fosse familiar, por isso limitou-se a agitar um braço como se enxotasse um insecto para longe.

“Devíamos aprender com o Tuqueia.”

Ngonga reconheceu o nome do peixe pulmonado que se enterra no lodo durante o período da seca para ser resgatado pelas chuvas. Permanecia enterrado uns palmos debaixo do lodo onde ainda existia alguma humidade que lhe preservava a pele. Respirava através de um pequeno orifício, aberto na terra, como se fosse a entrada de um formigueiro.

“Manhoso esse peixe – prosseguiu Hossi – aprendeu o costume do homem de respirar fora de água. Enterra-se a cada seca, volta com as chuvas. Para ele é como se morresse todos os anos.”

“Ou não sabendo que morreu, acorda a cada época das chuvas. Como o sol que regressa todas as manhãs. – provoca-o Ngonga – Sobrevive porque aprendeu o costume do homem…”

“Não. Sobrevive, não porque, sendo peixe, aprendeu o costume do homem, mas porque aprendendo o costume do homem, não deixou de ser peixe.”

Ngonga sorriu. Aquele mergulho voluntário do Tuqueia na escuridão do lodo era de um imenso potencial poético. Certas estrelas, cansadas de brilhar, antevendo a sua morte, também se lançavam na escuridão de um buraco negro. Era a sua forma de garantirem o regresso. O mano-mais-velho não era adepto que os seus generais escrevessem poesia. Não queria confusões nem comparações com fundador do MPLA, o também poeta Agostinho Neto. Na escola, os missionários encorajavam-nos a escrever poesia, mas isso não saía daí. A poesia era oficialmente encarada pelo movimento do Galo Negro como uma degeneração burguesa ao serviço dos interesses coloniais. Algo estranho ao espírito africano.

Ngonga interrogava-se se Hossi seria sensível à beleza de um momento poético, um peixe que aprendera os costumes do homem e se enterrava no lodo para sobreviver.

Hossi roubou-lhe aos seus pensamentos. “Os brancos têm um deus assim.”

“Um deus peixe?”

continua
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18 respostas a rascunho 01

  1. José Luís Outono diz:

    …um texto cheio de conhecimento. A libertação da palavra na criatividade do teu observar, assume cenários, que jogam com a nossa leitura. Fico no aguardo…de novos capítulos.

  2. agora já estamos a falar bem.

  3. Lindíssimo António!

    “O dia partiu arrumando consigo uma parte da vida.”
    Os aromas que se soltam de noite porque têm “medo de serem aspirados pelas criaturas do dia.”
    “Incapaz de se sentar sobre os seus calcanhares” – tive de sorrir, ao ler isto, porque eu também sou incapaz de o fazer. Em criança, quando via as outras sentadas sobre os calcanhares, pensava que tinha um defeito qualquer…
    Já conhecia a estratégia do Tuqueia. Gostei de ler um texto em que mostras tanto respeito pelos animais. Mas será que eles aprendem connosco? Ou somos nós que podemos aprender com eles? Há certas coisas em que eles são exímios e ganharíamos muito se observássemos a Natureza, não com arrogância, mas com humildade, com espírito de aprender.

    A brisa ligeira “comprometia a estabilidade aerodinâmica dos mosquitos” – também gostei desta. Sabes que na Alemanha há muitas melgas, porque há água por todo o lado (rios e lagos). E eu também já aprendi que, quando está vento, bem podemos abrir um pouco a janela, mesmo quando a luz está acesa 😉

  4. Porque sinto aqui a influência de Mia Couto? As coincidências nem sempre são donas de grande pureza, pois não?
    Quero impresso em A5 e encadernado, please… LOL!

    Este texto apaixona à primeira, meu amigo Tony. Fez-me lembrar os tempos do teu implumado “Livro”, em que pedaços de estórias nunca plenamente contadas deixavam sabor a prova que tinha de servir de repasto. Porque não nos davam mais…

    Às armas (estou a falar do teu computador!),
    S

  5. Estimados comentadores, pretendo neste novo espaço dar a total liberdade a quem comenta sem entrar em debate. No entanto, face a pertinência dos vossos comentários, vejo-me forçado a uma resposta.

    Ao José Luís Outono agradeço o comentário sempre bem vindo de quem tem o dom da palavra e se amantiza por ela.

    Ao Daniel, fico feliz por teres ficado feliz.

    Cristina, na Alemanha, as melgas sopram sempre… Agradeço as tuas palavras sempre ricas em interrogações, inconformando-nos, exaltando em nós o gosto por viver plenamente e em harmonia.

    Susana, Mia, um dos meus escritores favoritos, é um transfigurador das palavras, um criador de mundos fantásticos e histórias insólitas, plenas de conhecimento. Não me comparo.

    Vou publicar aqui, para a semana, mais um rascunho. Obrigado a todos.

  6. Pata Negra diz:

    Anda aqui um escritor, a trabalhar palavras, a saborear paisagens, a esculpir vidas e eis que mim só me resta ler! Parabéns! Estás no caminho da palavra, que não te falte a vida! Um abraço de reconhecimento e admiração. Ah! !! Queimei-me no cigarro!

  7. Também nos enterramos vivos… e não somos peixes…
    Excelente texto, parabéns.
    Caro amigo, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
    Abraço.

  8. Fa diz:

    Ah!… eis o famoso peixe!

  9. um deus-homem

    quem dormiu sob um céu assim, não esquece os cheiros da noite africana, pois não António?

    um abraço

    manuela

  10. Caprichos das claridades, e outras coisas de poeta….
    Gostei imenso de ler, Antonio, como sempre!

    Beijinhos!

  11. Nilson, infelizmente temos mais dificuldade em ressuscitar.

    Manuela, não me antecipes o meu final… 😉

    Virgínia, caprichos do correr da escrita.

    Obrigado a todos pela vossa leitura e comentáarios.

  12. Fa (a quem só agora validei o comentário), eis o homem!

  13. mar aravel diz:

    Apesar do peixe

    um belo texto a céu aberto

  14. jose casal diz:

    *
    amigo, gostei e pensei . . .
    ,
    plagio . . .

    Enquanto a chibata batia no seu amor,
    Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.!!!
    ,
    abraço, fica !
    ,
    *

  15. jose casal diz:

    jose casal
    poetaeusou !
    Descupa .
    *

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