rascunho 02 (continuação)

rascunho 01

Ngonga interrogava-se se Hossi seria sensível à beleza de um momento poético, um peixe que aprendera os costumes do homem e se enterrava no lodo para sobreviver.

Hossi roubou-lhe aos seus pensamentos. “Os brancos têm um deus assim.”

“Um deus peixe?”

“Não. Um deus que se deixou morrer, desceu à nação dos mortos e depois ressuscitou ao terceiro dia.”

O velho Hossi assistira a demasiadas celebrações religiosas para não lhes conhecer de cor as suas homilias. O mano-mais-velho gostava de agradar aos missionários protestantes, admirava-lhes a cultura e precisava deles para formar os seus quadros. Depois, a sua religiosidade protestante, caía bem aos apoiantes externos do movimento. Gostava de se fazer filmar assistindo a uma celebração presidida por um missionário branco. Hossi escutara aquela lenga-lenga cristã demasiadas vezes. A adesão ao protestantismo mantinha o Galo Negro no Deus das potências ocidentais dominantes, mas sem o peso da Igreja Católica tão intimamente ligada ao poder colonial português. Era o melhor de dois mundos, professar Cristo sem ter de carregar com as dores da inquisição.

“Referes-te a Jesus Cristo. Ele foi o enviado do Pai para remissão dos nossos pecados, com a sua morte libertou-nos. É isso a que te referes?”

Ngonga não esperava que o seu interlocutor percebesse a metáfora do cordeiro de Deus, ele apenas repetia uma certa visão escutada, vezes sem conta, da boca dos missionários.
Hossi fitou Ngonga com alguma tristeza. O branco partira mas deixara a África entregue à sua cultura dominante.

“O Tuqueia sobrevive, porque faz o que viu fazer aos seus irmãos mais velhos, mesmo que não o entenda ou lhe pareça errado. Ele honra os seus antepassados e ao mergulhar no lodo, sobrevive.”

Hossi agastava-se na urgência do que tinha para dizer, sentia que Ngonga não lhe concederia uma outra oportunidade.

“Cristo sobrevive ao terceiro dia porque fez a vontade do Pai que se manifestou nele desde a origem dos tempos. Foi essa fidelidade à vontade do Pai que o salvou. Essa é a lição que o homem branco esqueceu e veio à África para também nos fazer esquecer. Enquanto a África não se voltar para a sabedoria dos seus antepassados, honrando-os, não terá paz.”

Ngonga surpreendia-se, mal acreditava que aquelas palavras fossem ditas por ele. Como se ele, o velho Hossi, estivesse encarnado por um espírito que lhe dera toda aquela sabedoria. O seu silêncio, com que os acompanhara ao longo daquela caminhada, não era feito de nada para dizer, mas de nada ter para oferecer a quem não o desejava escutar.

“Quando o mano-mais-velho diz que a África pertence aos negros, ele fala como um homem branco. A África pertence aos nossos antepassados, será nossa se algum dia alguém nos honrar como tal.”

“Os nossos líderes foram educados a desprezar as nossas tradições, esqueceram a nossa língua, os nossos costumes, desconfiam dos seus antepassados, são brancos encardidos”.

O velho Hossi terminou a sua conversa cuspindo para o chão. Ngonga apercebeu-se que não lhe arrancaria mais nada nessa noite e retirou-se para o seu lugar. Teria muito em que pensar. Voltou a fitar o céu carregado de milhões de estrelas, pensou que não residia aí a infinidade do universo, mas sim naquela imensa negritude que envolvia todo aquele picotado de luz.

Naquelas paragens Ngonga tinha de esconder o poeta que havia em si. Aceitaria de bom grado o apelo de um Deus alheio à condição humana.

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16 respostas a rascunho 02 (continuação)

  1. José Luís Outono diz:

    A ânsia instala-se…em ver o todo desta obra.
    Mas percebe-se, desde já, o tom narrador, característico da tua lavra. Alimentas os personagens como se os estivesses a pintar. As rugas, atitudes, pensamentos e desafios são uma constante da tua escrita. E, se num “tom” inicial, pode parecer exaustivo, com o “correr da pena” , neste caso da leitura, é um pedido de namoro ao “consumidor de letras” que te visita.
    Num à parte …curioso…a poesia está presente. Fico agradado.

  2. A poesia foi aquele bocado de prosa que se desprendeu do aparo do prosador e ganhou existência própria.

  3. Não há dúvida de que o homem branco esqueceu muita coisa e contaminou os africanos. Fez dos seus líderes “brancos encardidos” – excelente expressão!

  4. Também escutei a “lenga-lenga cristã demasiadas vezes”…
    E nunca fui capaz de a entranhar…
    Excelente rascunho.Gostei.
    Abraço.

  5. É o coração que nos salva, nem tanto a razão…

  6. um rascunho onde está a tua característica e interessante forma de pintar o mundo, as pessoas e os diálogos. Muito bem.

  7. Olá, em menina me obrigavam ao Domingo a ir à missa. Ao Sábado a catequese e cheguei a levar pancada, porque fugia. Hoje, nada guardei do que me quiserem impingir…vivo de acordo com a minha consciência e antes de agir ponho-me sempre no lugar do outro. Tento não julgar ninguém e continuo a fugir dos falsos crentes. Adorei pois é a verdade pura doa a quem doer. Beijos com carinho

  8. manuela diz:

    um verdadeiro Deus, aceitaria um Ngonga assim

    um abraço

    manuela

  9. Pata Negra diz:

    Excelente texto a enquadrar uma excelente reflexão: “O branco partira mas deixara a África entregue à sua cultura dominante.” – Um chefe africano de fato e gravata?!
    Um abraço indígena

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