as luvas de um aprendiz (in)conformista, de Gabriela Rocha Martins

O poema nasce nas páginas deste livro como um ato de insubordinação. É a resposta a essa “fome de escrever”, a esses “caudais de lava que escorrem sobre as barrigas de textos prontos à desova” dando corpo ao sentido de mortalha com que o papel acolhe o texto.

-o funeral dos sonhos
a ambiguidade
adensa.se e nos rostos
avulsos
há um resfolegar
quebrado
que
se insinua
na memória das folhas
.se
ao menos fosse possível
reciclar a página
retocar a maquilhagem                     ou
avançar para dentro de um tempo novo?

O poema explora a esquadria improvável da página, roubando-lhe a pontuação, fugindo-lhe à sua forma clássica. O espaço de um parágrafo surge a meio de uma linha, servindo-lhe de quebra ao verso. As frases terminam num ponto final para que a frase seguinte comece a partir desse ponto, arrastando-o consigo para o seu início. O poema cola-se à página de uma forma plástica, como se fosse a obra artesanal de um pintor. Depositado em camadas, escrito com uma espátula, sofrendo um processo de desconstrução, de recorte e colagem. Uma impressão visual que não se dissocia da sua leitura, que nos provoca e desafia.

à revelia dos mortais
sangra o verbo

e um deus louco e quase cego
detém-se mastigando um resto de absoluto

Não ouso esquadrinhar em extensão o dizer do poeta, detenho-me à porta do seu indizível. Encontro neste livro o inconformismo e o convite à aprendizagem, à sua errância nas nossas vidas. Entre o zangado e o irónico, sempre provocadora, Gabriela Rocha Martins, deixa-nos uma reflexão, um olhar lento e penetrante sobre o significado das coisas insignificantes, sem nunca lhes conferir um registo definitivo, evitando assim o risco de se transformar numa lagartixa.

hoje acordei poeta
.coloquei entre as
minhas mãos milhares de caracteres e
misturei.os à revelia do verbo
.triturei

Vivemos tempos que não são mais do que um acrescento esconso aos sonhos que nos roubaram. Inventámos palavras novas para este tempo, palavras redutoras, sem métrica nem salvação. Palavras de claudicar e (no meu entender) obscenas.

O que nos resta? Ao poeta, sempre o seu caminho.

.amanhã serei um vagamundo
.percorrerei novos poemas

a poesia da Gabriel Rocha Martins
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Uma resposta a as luvas de um aprendiz (in)conformista, de Gabriela Rocha Martins

  1. José Luís Outono diz:

    …”roubaste-me as palavras”…que queria tecer em comentário. Um livro fascinante, inquietante e amante…de quem ousa o amanhã, com a coragem d’hoje!
    Gostei do que escreveste da nossa amiga…aliás “só o poderias fazer” na justeza de uma alma criativa, como a Gabriela Rocha Martins.

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