Encontro de Escritoras – Casa da Cultura de Setúbal

8 setubalTrês escritoras e uma editora. Esta é a proposta do Muito cá de casa para este sábado, dia 8, dia Internacional da Mulher.

Em As Mulheres da Fonte Nova, Alice Brito, oferece-nos o retrato de uma cidade conserveira a trabalhar para encher a despensa de uma europa à beira da guerra. Os homens no mar e as mulheres nas fábricas de conservas. Uma indústria de mulheres cheia de artes e segredos, cheia de lógicas próprias, perícias únicas e muita pulhice patronal. A riqueza fica nos bolsos dos patrões, a cidade e o país desperdiçam a oportunidade de melhorar o nível de vida das populações. As mulheres são operárias, donas de casa e mães. Pede-se-lhes ainda que sejam honradas. Os homens, sem direitos de cidadania, têm a autoridade definitiva sobre as mulheres e sobre elas impõem o que a sua educação machista lhes ensinou.
Ao longo do livro, ocasionalmente, uma voz desponta, uma voz contemporânea ao ato da escrita, ao nosso momento de leitura, que interroga a autora. Uma voz crítica, que vigia e chama a atenção: “Já disseste isso lá atrás…” Uma voz de mulher. Existe na escrita no feminino uma maior acutilância? Uma apurada consciência de combate?

Cristina Carvalho, nos seus romances, oferece-nos mulheres fortes: são elas o motor da narrativa. Os homens anulam-se ou, quando estão presentes, são motivo de desconforto e de dor. Em Ana de Londres, o pai decide ir à pesca. Cabe à mulher a azáfama de tudo preparar sem que nada lhe seja perguntado. Sem que a sua vontade seja escutada. A merenda de sempre, a mesma tarde de sempre. No fim, já de regresso, o marido abre o vidro do seu lado, 2 cm, inclina-se e abre o vidro do lado da mulher, 2cm. Ela não se atreve a mexer. O homem age assim, não porque seja um ditador, seguramente não tem consciência disso, mas porque é ele quem sabe. É essa sabedoria, feita de nada, que lhe confere a autoridade sobre o carro, sobre a abertura das janelas e sobre a mulher. É essa sabedoria, vazia, que lhe permite ter um emprego, garantindo o sustento da casa e com isso a autoridade do lar. É um homem excluído do mundo dos afetos, desinteressante, empobrecido e profundamente só. Cristina Carvalho é capaz de nos inundar de incertezas numa escrita simples, direta, dominada até ao domínio da mestria, sem se perder em elaboradas metáforas. Uma escrita forte e de notável acento poético. Ficamos reféns desta escrita, suspensos dos universos quase mágicos que consegue criar.

Qual o papel do homem nesta escrita? Uma escrita forte, por vezes crua e violenta? Um homem que aguarda a libertação da mulher, para que ele próprio possa viver em família e, no seio desta, ser feliz.

Ana Cristina Silva deu-nos homens fortes como Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque, ambos caídos em desgraça. Mouzinho dividido entre a sua paixão e o dever de lealdade para com o rei, decide pôr termo à vida. Luís Henrique, perante a traição de Violeta, decide partir para Londres, incapaz de enfrentar a sociedade Lisboeta. Também o filho de ambos parte para a Grande Guerra, deixando para trás um amor proibido, que julga doentio, inaceitável aos olhos da sociedade. São homens agarrados a códigos de honra social, bolorentos e atávicos. Preconceitos de uma sociedade arcaica. Homens que optam pela fuga. Violante resiste, vê o seu marido (Luís Henrique), fugir para Londres, incapaz de lidar com a traição da mulher e a incerteza da paternidade do filho que esta carrega dentro de si. Regressa mais tarde para obter de Violante uma explicação a que julga ter direito. Enfrenta a mulher, mas é ela quem domina a situação. Luís Henrique suporta um monólogo demolidor, calado e sem direito a réplica. Faz-nos recordar a cena em que dois amigos, rivais no amor de uma mesma mulher se encontram ao fim de muitos anos, para que apenas um deles fale. Um monólogo em que o outro figura como um adereço. Refiro-me ao jantar de As Velas Ardem até ao Fim, de Sándor Márai. O pendor teatral de ambas as cenas é esmagador.
A escrita de Ana Cristina Silva cola-se aos personagens, desce até ao mais recôndito recanto do seu ser dando-lhes voz. Fá-lo com inigualável segurança, independente do género ou da condição social, desde o rei selvagem ao militar erudito e urbano, da mulher dos grandes palcos à fragilidade do homem que não tem respostas para uma sociedade intolerante.

A humanidade ergueu-se, há milhões de anos, porque um dia ser-lhe-ia confiado o dom da palavra. Esta aventura da escrita começou verdadeiramente nesse dia, no dia do primeiro fonema. Preservemos, então, essa dignidade.

Está aberta a discussão. Apareçam.

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